Jéssica Maes

Jéssica Maes

Publicado em 5/5/2020

De pasto degradado a solo fértil: aos 66 anos, casal cultiva mais de 20 tipos de orgânicos

Com boas técnicas de manejo, Mário e Elisa cuidam sozinhos dos quase 3 hectares da Chácara Nakui, onde produzem alimentos, quase sem insumos externos.

Curitiba não tem muito respeito pelas estações do ano, e a terça-feira amanheceu cinzenta, com cara de poucos amigos, mesmo com o verão batendo à porta. A capital paranaense leva fama de rabugenta pela escassez de dias ensolarados. O município de Piraquara, na região metropolitana, não escapa do clima ingrato. Mas nem a garoa fina do início do dia, que faz com que bichos e humanos fiquem entocados, foi suficiente para convencer Mário e Eliza Nakui a se darem um dia de folga. Com as mangas arregaçadas, e uma rádio de música pop ditando o ritmo, o casal se empenha na colheita de rabanetes. Eles têm uma encomenda de 400 bandejas para entregar.

“Hoje de manhã eu tô aqui, e à tarde vou lá na minha chácara colher”, diz o homem de 66 anos. É que a cunhada e vizinha, Halina Haruko, teve problemas de saúde. Por isso, o casal ajuda a tocar, além da Chácara Nakui, a propriedade dela também, a Estação Paraíso. “Colher é fácil. Vamos também lavar e secar. À noite, vamos empacotar, colocar na bandeja, enfilmar.” Depois de embalada, a produção é entregue para a Rio de Una – uma empresa de processamento e distribuição de alimentos orgânicos que atua na região.

O serviço é intenso: não sobra muito tempo, e o dia todo fica preenchido pelo trabalho. “E que horas dorme?”, pergunto. “Ah, a hora que der”, responde o agricultor, rindo.

“Eles amam a terra e acreditam nisso”, comenta a agrônoma Manoela Moreira Miró, do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA), que acompanha as propriedades da família. O casal não tem tempo para descanso nem nos fins de semana. “Outros agricultores tentam deixar pelo menos o domingo livre, mas eles não”, diz Manoela. “São muito guerreiros, com o pique de uma pessoa de 20 anos, e sempre bem-humorados.”

“É uma vida agitada. A gente trabalha a hora que puder mas sempre cumprindo a exigência dos tomateiros, porque o tomate não espera: o chefe é o tomate”, brinca o agricultor. “Folga para o agricultor orgânico, é complicado”, diz Mário.

Durante o dia, eles trabalham no campo. “Aí chega a tarde e vamos jantar, descansar um pouquinho.” À noite, o serviço continua. É hora de colocar as anotações em dia: “No sistema orgânico, tudo que você faz tem que anotar”, explica Mário. Afinal, para manter a produção orgânica certificada, a legislação demanda que o agricultor mantenha em dia o chamado caderno de campo – um documento que registra as rotinas de produção, as técnicas de manejo e os insumos utilizados.

Atualmente é o próprio CPRA, órgão vinculado ao governo estadual, o responsável por certificar a produção orgânica da Chácara Nakui e da Estação Paraíso. A isenção de pagamento da certificação e os juros mais baixos para financiamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) são os únicos subsídios com que eles contam.

A família Nakui quase não depende de insumos externos. Fazem, na propriedade, as caldas e a compostagem que usam em seus cultivos. “A gente tem procurado fazer tudo natural; não usamos nada de esterco comprado, por exemplo”, diz o agricultor. A propósito, mesmo no supermercado o casal Nakui compra apenas o que não produz em casa – como arroz e feijão.

Manoela conta que, no passado, a Chácara Nakui era usada como pasto. Não era um terreno ideal para agricultura. Mas, com um manejo orgânico bem-sucedido, o casal conseguiu recuperar totalmente a vitalidade do solo. “É por isso que, hoje, eles conseguem produzir sem precisar de quase nenhum insumo”, contextualiza a agrônoma.

O casal Nakui investe muito na própria capacitação. Segundo Manuela, esse é um dos traços que os diferencia de muitos agricultores da redondeza. Ambos têm ensino superior completo. Mas a formação em educação física foi eventualmente deixada de lado – e substituída pelos livros de horticultura orgânica. “Eles têm muita experiência, estudam muito e são muito dedicados”.

Do outro lado do mundo

Juntos há 40 anos, Mário e Elisa se conheceram quando ambos treinavam judô em Apucarana, no interior do Paraná. Da amizade no tatame, nasceu o romance. “Foi sorte, né, a gente ter se encontrado”, conta Elisa. Quando os filhos nasceram, Mário era bancário no Brasil, cargo que largou para montar a própria empresa. Porém, o empreendimento sofreu os efeitos da alta inflação e da situação econômica difícil pela qual o país passava durante a redemocratização. Em 1989, ele fez as malas: resolveu emigrar para o Japão em busca de um novo caminho.

“Minha intenção era ficar no máximo um ano, tirar um dinheiro e voltar”, lembra Mário. Mas ele mudou de ideia. Trabalhando em uma loja, conseguiu uma boa renda e resolveu levar a família toda para o Japão.

Os Nakui acabaram indo para a pequena cidade de Kamikatsu. E foi lá que resolveram colocar as mãos na terra: passaram a cultivar cogumelos shitake no sistema orgânico. Uma fábrica tinha se instalado no local e estava selecionando empregados que tivessem filhos pequenos para receber propriedades rurais já equipadas com estufas para o cultivo dos cogumelos. Exerceram a atividade por 16 anos. E aprenderam técnicas que usam até hoje. Na bagagem, trouxeram muita experiência em agricultura orgânica – e até o primeiro tratorzinho, que, para ser usado na chácara, teve de atravessar oceanos.

Voltaram em 2006, para cuidar dos pais de Elisa. Mas os filhos ficaram. “Eles nasceram aqui mas, como foram para o Japão ainda crianças, acabaram se acostumando por lá: estudaram, se casaram”, conta Mário. São três filhos – e agora sete netos – que moram do outro lado do mundo. Contato, eles mantêm pela internet. A conexão de banda larga só chegou à Chácara Nakui recentemente. “Antes, era só no zapzap”, conta o agricultor, referenciando o popular apelido do aplicativo de mensagens WhatsApp. “Agora, fico o tempo todo conversando com minha filha.” 

Dificuldade na comercialização

A renda está um pouco apertada, eles contam, mesmo com a aposentadoria recebida por Mário. No momento, a Rio de Una é o único canal fixo de vendas. Na empresa, a produção é etiquetada, identificada com a marca do agricultor e revendida para redes de supermercados.

O casal Nakui tem, também, vários clientes que vão até a propriedade adquirir seus produtos. Ao todo, são aproximadamente 50 pessoas. Boa parte delas visita frequentemente a chácara: “São nossos clientes há mais de uma década”, diz Mário. “As pessoas já conhecem o sabor do alimento; é muito bom saber que elas gostam.”

A diversidade impressiona: somando culturas de inverno e verão, a chácara é certificada para produzir mais de 80 alimentos orgânicos diferentes. “Hoje nós temos cenoura, beterraba, rabanete, espinafre, nirá, repolho, aspargo, alho-poró, alcachofra, azedinha, batata e batata yacon”, enumeram. 

Sem mão de obra suficiente, porém, é difícil produzir toda essa variedade em larga escala. Mário e Elisa não conseguem manter um funcionário na folha de pagamento. E, com pouquíssimo tempo sobrando, não conseguem participar de feiras.

Em 2019, eles tentaram participar do Sacolão – uma feira de agricultores locais organizada pela prefeitura de Piraquara. Não deu certo. Houve um problema de saúde na família, e a limitada capacidade de produção não era suficiente para atender às demandas da feira. “A gente não dava conta”, justifica Mário.

“Aqui no município, precisamos de mais famílias vendendo orgânicos certificados”, sugere Elisa. “Assim, poderíamos fazer uma feira só de orgânicos.” O casal destaca a importância de diversificar os canais de comercialização: depender de uma única empresa, dizem eles, pode ser arriscado.

Há alguns anos, a família vendia seus vegetais para a merenda de escolas municipais e para restaurantes da região. Mas isso já não acontece mais. Em outubro passado, o último estabelecimento abandonou a parceria. “A dona do restaurante falou ‘orgânico é bom, mas a gente precisa diminuir o custo’”, conta o agricultor. Ele vendia alface orgânica por R$ 1,20 a cabeça. Mas a comerciante pagava pouco mais da metade desse valor por uma alface não orgânica no mercado convencional. “Então, fazer o quê, né?”, lamenta Mário. “Eu quero vender, mas alguns clientes não querem comprar.”

Agora, o casal aguarda a aposentadoria de Elisa. Enquanto isso, começaram a investir em cultivos que exijam menos trabalho e, ao mesmo tempo, tenham maior valor agregado. Decidiram plantar aspargos: eles já estão brotando. “O aspargo é mais perene”, explica Mário. “Assim, dá um descanso pra gente. Já não estamos mais na idade de enfrentar tudo isso”, diz Elisa, sempre sorrindo.

Esta reportagem faz parte do projeto Farming for the future: ecological agriculture and food security in the 21st century, idealizado pelo jornalista Henrique Kugler, em que jornalistas e fotógrafos visitam propriedades rurais ecológicas em vários países para revelar quem está por trás dessa revolução silenciosa.


Fonte:
https://projetocolabora.com.br/ods12/amor-pela-terra-aos-66-anos-casal-transforma-pastagem-em-terra-fertil-para-80-tipos-de-alimentos-organicos/

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