Nina Marcucci

jornalista da Menos1Lixo

Economia Donut: a sua noção de progresso já mudou?

Qual é o novo normal que queremos construir?

Você também tem pensado nisso? Quais são os paradigmas que você tá disposta a quebrar quando pudermos sair de casa? Existem algumas alternativas e ideias circulando do que será o futuro por aí e queremos compartilhar sobre a Economia Donut. Circulou um vídeo do rapper e poeta Emicida no Papo de Segunda falando sobre o futuro. Ele disse:

precisamos melhorar como seres humanos. A gente fala muito do depois, pra onde a gente vai no depois, será que a gente vai subir esse degrau? A construção é baseada em outras coisas, a gente precisa fazer um movimento rumo a subir esse degrau. a gente precisa entender como se relaciona, como a gente consome, mora, dorme e como as outras pessoas fazem tudo isso. até então, a gente sempre foi acostumado com ser organizado por demandas externas. é a escola, o trabalho, a faculdade, o relacionamento. Agora é você com você mesmo.

E como você se sente em relação a isso? Você conversa com você? Ouve suas emoções, investiga os seus sonhos? Você observa como os seus hábitos mudaram desde que estamos em quarentena? Charles Eisenstein disse que “Interromper um hábito é transformá-lo de uma compulsão para uma escolha.” Quais são as suas escolhas para o hoje? E pros próximos 3 dias? Quais são as suas prioridades agora? E quais prioridades que estavam em destaque há um mês e não estão mais? Quando falamos em pausa para refletir, estamos pensando nesse movimento. Como disse o Emicida, não vamos mudar o normal do dia para noite, se não estivermos efetivamente empenhados nessa transformação.

A grandeza do micro

E nós podemos começar pelo micro, claro. Podemos pensar na alta taxa de obesos e obesas no planeta, um grupo de risco. Segundo um relatório da OMS do final do ano passado, 2,3 bilhões de crianças e adultos têm sobrepeso ou obesidade. E um em cada cinco adultos morrem por se alimentarem mal. Segundo uma pesquisa da Vigitel também do ano passado, no Brasil, a taxa de obesidade passou de 11,8% em 2011 para quase 20% em 2018 – um aumento de 67%. Além disso, 55,7% da população brasileira tem sobrepeso, ou seja, um limite que ultrapassa o que consideramos saudável pro nosso corpo. Nesse índice, crescemos 30% de 2006 para 2018. E,  não à toa, também se apresenta um dado chocante: no mesmo período, o consumo de ultraprocessados cresceu 56% por aqui. 

É fácil fazer as contas, né?

Em uma sociedade que preza a produtividade e a falta de tempo para tudo que não envolva produzir e trabalhar, a alimentação mais prática, mais barata e com menos valor nutricional também se transforma em protagonista. E essa praticidade vem todinha embalada em plástico, que envenena os nossos oceanos e mata ecossistemas. Nós descartamos mais de 10 milhões de toneladas de plástico anualmente nos mares. 

A segmentação de uma vida em caixas também favorece esse movimento: quando não conectamos a nossa saúde à nossa alimentação, por exemplo. Hoje, existem mais farmácias do que o recomendado pela OMS no Brasil. Só no Rio de Janeiro, a quantidade de farmácias cresceu 40% nos últimos 5 anos – uma para cada 2.800 habitantes. A recomendação é de um estabelecimento para 8 mil habitantes

O bom e velho ditado de que é melhor prevenir do que remediar já não faz mais tanto sentido pra maioria da população. Quando observamos a guerra pela cura na crise do coronavírus isso parece mais claro. A especulação de que remédios para malária e lúpus poderiam ser eficazes contra o COVID-19, deixaram muitas farmácias sem estoque em algumas horas. As pessoas correram para garantir uma cura não comprovada de um remédio que não conhecem. E, claro, impossibilitaram o acesso daqueles que verdadeiramente precisam da medicação. E se esse movimento não foi muito louco pra você… te convido a repensar mais uma vez. 

Quantos de nós sabemos quais vitaminas são importantes para a nossa saúde? Quais chás podemos tomar para desconfortos no corpo? Que horário do dia somos mais bem humorados?

E o que isso tudo quer dizer? Bom, que vivemos em um sistema que não valoriza, em primeiro lugar, o nosso autoconhecimento. Quando engolimos um remédio antes de entendermos os sintomas, estamos intoxicando nosso organismo e despriorizando todo uma sabedoria ancestral de autoescuta. Não queremos entender os motivos, apenas parar a dor a curto prazo. E  nesse movimento, esquecemos que o corpo conversa com a gente o tempo todo e que sinais de alerta pedem pausa e avaliação.

E o que o sistema tem a ver com isso? Uau! É ele quem dita as regras, certo? O sistema econômico do crescimento como base do sucesso de uma sociedade ou de uma organização. Que é resumido na extração de matéria-prima oferecida pela natureza e a transformação dela em coisas. Essas coisas são consumidas pela população e logo descartadas. E esse ciclo precisa continuar para extrairmos mais recursos e crescer. Também precisamos de competição! Muitas marcas fabricando os mesmos produtos, com muita produtividade e objetos de desejo como resultado. Segundo uma pesquisa da FGV, são 220 milhões de celulares ativos para 207 milhões de habitantes. Levando em consideração que nem todas as pessoas têm celulares e que 17% da população brasileira são crianças com menos de 12 anos… é muita acumulação, é? 

E o sistema precisa disso. A lei da oferta e da procura promove um desequilíbrio constante, fundamental para que o crescimento linear continue acontecendo. A notícia de fornecedores superfaturando máscaras N95 para os hospitais durante a pandemia é bem expressiva desse sistema. Ou as muitas declarações do presidente da república, minimizando o valor das mortes brasileiras pelo coronavírus. 

O sistema prioriza a economia. Caso contrário, não teríamos 820 milhões de pessoas morrendo de fome no mundo em 2018 e 113 milhões em situação de fome extrema, já que não falta comida.  E a desigualdade social no Brasil não teria atingido seu ápice em 2019. Também não teríamos uma discussão sobre ajuda do governo federal durante a pandemia: ela viria para os que precisam dos cuidados – os eleitores, cidadãos e contribuintes – sem parecer um favor

E quanto vale uma vida?

O Brasil viveu recentemente os crimes ambientais de Brumadinho e Mariana. A mineração é uma atividade de muito valor no sistema extração-produção-consumo-descarte e representa 4% do PIB brasileiro.  O lucro dos 4 maiores bancos do Brasil cresceu 18% em 2019 e bateu quase 82 bilhões de reais. E se todo esse dinheiro fosse investido na saúde pública, no combate à desigualdade, na preservação da natureza? E se a gente, de fato, priorizasse a vida e não o dinheiro?

A economista – renegada – Kate Raworth fez um TEDx muito interessante sobre a nossa noção de progresso. Hoje, ele é uma linha que cresce. A nossa maior experiência de celebração pelo progresso está nos bebês quando caminham ou naquela fatídica foto da evolução dos macacos e homens. Quando ficamos bípedes, ou seja, quando crescemos linearmente, atingimos o progresso. E o conceito dessa palavra nada mais é do que melhorar a condição humana. Só que no sistema econômico do extrair-produzir-consumir-descartar, o progresso linear significa crescer. E melhorar a condição humana é acumular. Segundo uma pesquisa lançada no Fórum Social Mundial deste ano, os 2.153 bilionários do mundo são mais ricos que 60% da populaçãode 7 bilhões de pessoas. E 22 deles têm mais dinheiro do que todas as mulheres do continente africano. A pergunta que fica é: por que acumular, se não estamos todos nem perto de termos o básico necessário para (sobre)viver? 

No sistema econômico de hoje, nós somos trabalhadores ou consumidores.

Enquanto você trabalha, você garante o recurso financeiro para consumir. E, enquanto você consome, você investe o seu dinheiro. É um ciclo vicioso. O que não tá implícito nesse sistema de troca é, claro, o que não é remunerado. Kate citou trabalhos como a educação oferecida pelas mães e pais dentro de casa, e que vai formar a nova geração de trabalhadores e consumidores. É um trabalho não remunerado, mas essencial para o futuro do sistema. Esse modelo também ignora milhões de mulheres que mantém famílias vivas com seu trabalho doméstico e de garantia de sobrevivência para famílias inteiras. Outra falha desse sistema é que nem todo valor é monetizável e se ignora potências muito importantes do ser humano, como a colaboração e a solidariedade. A troca de conhecimento online, por exemplo, nem sempre é paga e contribui para o progresso. 

E em um sistema de trabalhadores x consumidores, o nosso lado emocional jamais pode ser colocado à mesa. Precisamos agir da mesma forma todos os dias da semana, não importa o que aconteça dentro de nós. Não importa se estamos com uma doença na família ou uma dor de estômago. Não importa se é lua nova ou cheia. Não é importante que as pessoas se vulnerabilizem, que peçam ajuda, que chorem de emoção. Precisamos agir com firmeza e deixar os nossos problemas do lado de fora do escritório. Não podemos ser humanos, precisamos de profissionalismo. E tudo embrulhado na armadilha do amor ao ofício e do vestir a camisa. Não seríamos muito mais produtivos e verdadeiros se pudéssemos usar a potência das emoções no ambiente do trabalho? No espaço que você investe o maior número de horas da sua semana? Se pudéssemos respeitar nosso relógio interno e nossa autoescuta

e se o bem-estar fosse a prioridade e não o dinheiro?

Utilidade, eficiência e crescimento são as palavras-chave da nossa missão como trabalhadores ou consumidores. E Kate provoca: e se o bem-estar fosse a prioridade e não o dinheiro? E se as básicas necessidades de todos fossem cobertas no mundo inteiro? É o que ela propõe na Economia Donut 🙂 Um modelo econômico que garante o que precisamos para viver bem – moradia, saúde, educação, alimentação, energia, águasem ultrapassar os limites do planeta. Para priorizarmos o bem-estar, precisamos entender que somos interdependentes entre nós e com a Terra.

E a nossa ideia de progresso é atualizada. 

E por que donut?

No centro da rosquinha, estão todas as pessoas que não estão com as suas necessidades básicas atendidas. Fora do donut, estão todas as mazelas do planeta: aquecimento global, acidificação dos oceanos, perda de biodiversidade, etc. O objetivo é justamente manter as pessoas e o planeta no centro da rosquinha. Sem ultrapassar o limite da Terra e tampouco o limite das pessoas. Toda e qualquer decisão deve ter esse norte e objetivo e o progresso passa a ser uma balança entre usar os recursos da natureza, protegendo os ecossistemas (e a humanidade) e garantir que todo indivíduo seja capaz de viver com seu bem estar garantido. 

E toda a estrutura se transforma! Nossos hábitos serão pensados a partir dessa premissa, modelos organizacionais e intenções de voto também. E podemos priorizar atitudes e comportamentos que não se encaixam no sistema de hoje, porque simplesmente não estão alinhados com a produtividade. Poderemos valorizar a beleza da natureza, o equilíbrio entre as cidades e a biodiversidade e os relacionamentos. Teremos um sistema que vai priorizar a prosperidade do coletivo e não o crescimento dele. 

A boa notícia é que Amsterdã declarou que a economia donut vai guiar o modelo econômico da cidade na pós pandemia. Na quarta-feira (15), ele foi oficialmente adotado e vai passar a guiar as decisões políticas. Kate está co-criando o processo e acredita que é um modelo eficaz na solução dos problemas pós crise do coronavírus, já que ele atende aos direitos dos cidadãos e o planeta Terra, que cada vez mais precisa de atenção. O primeiro passo foi mapear por que as pessoas ainda estavam fora dos limites do donut e desenhar os desafios e soluções. 

Segundo artigo no The Guardian, em uma entrevista com Kate e a vice-prefeita de Amsterdã, a cidade tem um desafio com as moradias e a incapacidade dos inquilinos de bancarem suas necessidades básicas, como o aluguel. A solução imediata seria construir casas, mas a economia donut nos lembra dos limites do meio ambiente: as emissões de dióxido de carbono estão 31% acima dos níveis esperados na região. Além disso, a pegada de carbono da importação dos materiais de construção estão também fora dos limites que a cidade pode suportar. O problema está no valor dos aluguéis e na valorização do setor imobiliário e não na quantidade de moradia. 

Outro desafio da cidade é o porto, que é o maior importador de grãos de cacau do mundo, que vêm – principalmente – do oeste africano e nós já falamos disso por aqui. Por lá, a mão de obra é bastante explorada e o processo é de muita degradação das florestas. Kate coloca que a magia da economia é cuidar do planeta, logo, é preciso garantir direitos trabalhistas na África para que a importação continue. E ela conclui:

O mundo está passando por uma série de choques e impactos surpreendentes que nos permitem mudar da ideia de crescimento para ‘prosperar. Prosperar significa que nosso bem-estar está em equilíbrio. Nós o conhecemos tão bem no nível do nosso corpo. Este é o momento em que conectaremos a saúde corporal à saúde planetária.

E se é! A Mãe Terra já tá há um tempo pedindo socorro. E nós precisamos pausar para entender como podemos usar a nossa inteligência coletiva para estarmos aqui como humanidade. E é muito importante que usemos esse tempo para fazer as perguntas que podem mudar o futuro: por que ainda valorizamos os que têm dinheiro, com tanta desigualdade econômica e social no planeta? Por que atitudes como o amor, a colaboração e a vulnerabilidade não são esperadas em ambientes corporativos, em que trocamos o nosso tempo e excelência pelo dinheiro? Por que ainda enxergamos pessoas com muito dinheiro como bem sucedidas? Por que acreditamos que o crescer linearmente é o sucesso?

Por que normalizamos tudo isso?

E então começamos a transformar a nossa lente sobre o progresso. Onde estão os esforços efetivos para que governos, bancos e grandes empresas se mobilizem para solucionar os grandes desafios da população global? Se um vírus nos lembra que as fronteiras são imaginárias, por que ainda agimos em um sistema de nós contra eles? Quem são eles? E quem somos nós? E quem é você nessa equação? 

Imagens: Acervo Menos1Lixo
Fonte:
https://www.menos1lixo.com.br/posts/o-futuro-progresso

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