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Tradução do francês - Jean-Claude Razel

Por Hélène Michel, Marielle Salvador e Dominique Kreziak

MICRO AVENTURA, a viagem no seu quintal

As férias chegaram e o calor também. Em Grenoble, o termômetro é de 38 graus. Como parte de uma pesquisa sobre as transformações do turismo, vamos ao campo para coletar dados. O objetivo é o cume do Monte Aiguille para analisar o fenômeno da microaventura revelado por Alastair Humphreys. Para este aventureiro inglês, autor e palestrante, é uma aventura “curta, perto de casa e parte do cotidiano“. Uma hora de carro, algumas horas de caminhada e escalada… aqui estamos a uma altitude de 2.000 metros. Não fomos os únicos que tiveram essa ideia: por que estão aqui? Estão de licença? A conversa começa. Essas nove pessoas ilustram várias tendências do turismo mundial.

Em primeiro lugar, eles fogem do turismo de massa que invade capitais como Barcelona e seus 32 milhões de visitantes anuais (vinte vezes sua população) ou Veneza, que tenta regular esse fluxo tributando os visitantes que desembarcam. Eles também têm a semelhança de ter viajado apenas uma hora de carro de casa. O turismo em seu quintal é a própria definição de “staycation” (contração de “stay” para ficar e “vacation” para férias). Acontece por razões econômicas obviamente, mas também ideológicas, em um contexto onde voar começou a ser mal visto – vide o sucesso da campanha “flygskam” na Suécia que se refere à vergonha de voar.

Desse grupo, nenhum está de férias. Alguns tiraram o dia, outros trabalham à noite. É mais um modo de vida, um tipo de turismo do cotidiano cujo objetivo é inserir um pouco de férias nos buracos da agenda.

Mesmo lugar, mesma atividade, ao mesmo tempo: todos eles vieram para encantar suas vidas. No entanto, três experiências muito diferentes estão acontecendo.

Encantar seu cotidiano encontrando falhas no tempo

Conhecemos três pessoas, duas mulheres e um homem, de 30 anos, que vieram para escalar, com mochilas e todo equipamento. Eles voltam para casa à noite. Sua fonte de inspiração? Mapas e croquis de escalada descrevendo os acessos, rotas e graus de dificuldade. A alavanca motivacional: a atividade em si. A foto do dia? As corda no início da via como se dissesse: “Olha o que estou fazendo enquanto você está trabalhando!

Há um desejo de otimizar seu dia, aproveitando ao máximo um cronograma apertado. Esse desejo de ser eficiente seria característico de uma nova classe conhecida como “classe ascendente”. No século XIX, as classes sociais altas eram compostas por pessoas ociosas que podiam desfrutar de seu tempo livremente, gastando tempo e dinheiro improdutiva e ostensivamente. Hoje, as classes dominantes trabalham intensamente para alcançar essa posição e não sobra tempo. Torna-se ainda mais valioso, pois não pode ser desperdiçado.

Os indivíduos buscam a sensação de progressão mesmo no seu lazer. As experiências originais fazem você se sentir produtivo e eficiente no uso do seu tempo. No dia seguinte, a vida normal recomeça, mas com a dimensão extra de ter realizado algo. Para esses, a relação com a natureza e esforço físico têm papel central.

“Staycation”, nova tendência turística

Esses comportamentos questionam sobre novos fenômenos turísticos. A busca pela ruptura da vida cotidiana se manifesta no fenômeno da “staycation” que deve aumentar nos próximos anos. É ilustrado por práticas como, por exemplo, viver “no modo de férias” em uma barraca, perto de casa.

Na encruzilhada do turismo lento, do turismo responsável e do turismo criativo, a “staycation” ilustra a busca de experiências emocionais e de bem-estar, qualidade de vida e saúde, marcadas pela autenticidade, o imediatismo e a comunicação.

Assim, na onda da economia da experiência, a “staycation” responde a uma busca por autenticidade buscada pelos turistas, como os movimentos de “couchsurfing” (acomodação gratuita entre indivíduos por uma noite ou alguns dias), ou “greeters” (voluntários que recebem turistas gratuitamente para mostrar sua cidade de forma pessoal e original).

Colecionar experiências memoráveis

Na subida, encontramos outro grupo composto por dois homens e duas mulheres, entre 25 e 40 anos. Eles se conheceram via um site que conecta entusiastas da vida ao ar livre. Eles vão dormir lá em cima. Sua fonte de inspiração? Um guia das mais belas experiências para se viver que seleciona lugares e atividades. 

Cruzamo-nos no topo novamente, acomodados sumariamente para a noite. Apressados para subir, eles também estão ansiosos para descer. GoPro fixado no capacete, eles tiram um monte de fotos, escalando, no topo, no rappel. Eles capricham na montagem para compartilhar com sua comunidade.

A ideia é “fabricar memórias” que farão parte das experiências inesquecíveis. Finalmente, viver experiências únicas, não é a promessa feita por uma boa operadora de turismo? Por trás disso, a ideia é a busca por desempenho tanto físico (escalar, mergulhar, correr uma maratona), quanto mental (superar medos, aceitar riscos).

O conceito de experiência tornou-se central na gestão do turismo. Uma experiência memorável inclui três dimensões fundamentais: uma dimensão pessoal e psicológica relacionada à emoção, uma dimensão cultural relacionada ao meio ambiente e uma dimensão de relacionamento. A intensidade deste último dependerá do contexto, mas também de um elemento que, em última análise, o tornará mais memorável. A memorável experiência turística é, portanto, tingida com subjetividade. Contribui para o bem-estar do indivíduo, para sua transformação pessoal, para um aprendizado. Vivemos em uma “economia da experiência” onde os atores do turismo se organizam para responder à esta busca do indivíduo por um eu autêntico. A novidade é que hoje, não é mais preciso atravessar o mundo: acontece no quintal de casa.

Da experiência para o jogo

O último grupo que encontramos são dois homens na casa dos trinta anos, colegas de trabalho. Enfermeiros, eles aproveitam um cronograma escalonado para fazer um “hold up”, em suas próprias palavras. Um dos dois, mais experiente, guia o outro. As escaladas míticas, a superação, ele já provou de tudo. Ele não se importa mais. Seu prazer é vir com um amigo para passar a noite lá em cima. Eles são os únicos que trouxeram uma tenda. Eles não esqueceram um “salsicha” artesanal e uma boa garrafa de vinho. Eles curtem o tempo para admirar, conversar, tomar café no dia seguinte antes de descer. Seu objetivo não era subir ao topo do Monte Aiguille, mas criar um momento tingido com pequenos prazeres que ajudam a torná-lo excepcional. Pode ser trazer comida ou objetos inusitados (uma guirlanda para iluminar a tenda ou copos de pé para provar o vinho) que se tornam totalmente incongruentes em tal lugar.

Suas fontes de inspiração? Livros, podcasts e comunidades nas redes sociais que colocam o incerto ou a brincadeira no meio da experiência. Eles sugerem, por exemplo, jogar dados ou moedas para decidir a direção que vai tomar…

Essa abordagem nos permite revisitar um território familiar transformando-o em um playground. O filósofo Johan Huizinga, que teorizou o jogo na década de 1930, explicou que jogar jogos cria “mundos temporários no coração do mundo habitual onde regras especiais se aplicam“. A microaventura oferece um mundo temporário que permite experimentar novas ações sem temer fortes consequências. Para que o jogo funcione, é essencial incorporar pelo menos uma regra ou restrição que fará da atividade uma verdadeira busca e o participante ou turista um herói.

Viajar… sem ir longe

O mundo das férias pode ser criado por uma simples mudança de hábitos, uma dessincronização da vida cotidiana: “adotar estilos de vida diferentes, acordar tarde, fazer piquenique no jardim ou usar roupas diferentes“. Além de ajudar a viver e sentir a experiência guiando-a e amplificando-a, este objeto também pode ser usado para ancorar a memória.

No Grand Canyon, a guarda do parque Elyssa Shalla realizou um experimento em 2018. Ela instalou uma máquina de escrever antiga em um mirante acessível, depois de dez quilômetros de caminhada “para ver o que aconteceria…”. Ela tinha colocado a seguinte nota: “Caro caminhante, bem-vindo ao ponto de vista do planalto. Você percorreu um longo caminho. Sente-se um pouco e relaxe. Olhe ao seu redor. O que isso significa para você?” Em três dias, 76 mensagens foram coletadas. Elyssa Shalla conclui: “Precisamos criar mais oportunidades para que as pessoas parem, pensem e sintam ao mesmo tempo, e oferecer uma maneira de compartilhar sua experiência“.

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